quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Sofrer por amor: Porque é tão difícil aceitar que acabou?




Por: Glenda Almeida Pratti

Viver um relacionamento não é tarefa fácil. Conhecer e conviver com as diferenças pode ser uma tarefa árdua e até insuportável, tanto que alguns preferem dar um basta a ter que lidar com os problemas consequentes do relacionamento. Contudo, quando se chega a esse ponto, não é sempre que os parceiros chegam ao consenso de que “o fim” é a melhor alternativa.

Inúmero são os motivos que podem fazer com que uma pessoa não aceite o fim de um relacionamento: há casos onde o ex-parceiro só consegue passar a investir na relação quando está prestes a perder o companheiro, daí a dificuldade em aceitar o fim; há outros em que a questão maior é a dificuldade de lidar com a interpretação de que o “não” do parceiro significa rejeição; em casos extremos não se aceita “o fim” por nutrir uma relação de posse ou dominação sobre o outro. O que esses casos têm em comum é a presença da dificuldade de lidar com a frustração.

É importante frisar que em geral, a raiz do problema se concentra nas questões pessoais do indivíduo que não aceita o término, porém, não podemos ignorar que para ser um relacionamento é necessária também a participação de uma outra pessoa. Isto é, os relacionamentos são construções entre indivíduos. Um relacionamento problemático ou corrosivo não se constrói sozinho, para se constituir como tal, é necessária a implicação das duas partes.

Aceitar um término é difícil por envolver sentimentos, crenças, valores e expectativas, porém isso não impede que alguns limites sejam preservados no que se refere ao próprio bem estar psicológico individual dos parceiros. A perda do respeito mútuo pode ser considerada um dos principais indicadores de que as coisas não estão bem. Essa perda de limite pode se revelar de várias formas, desde a invasão de privacidade até a presença de agressões verbais e físicas.

Respeitar a decisão do parceiro ou parceira não é uma opção, mas sim uma necessidade do relacionamento. Ninguém precisa aceitar nem concordar com as decisões e pensamentos das outras pessoas, mas precisa saber respeitá-las.

Um relacionamento saudável pode ter problemas desde que não falte diálogo. A ausência de diálogo é um indicador de que as coisas não estão bem e ainda podem ficar piores. O diálogo é o fundamento para qualquer relacionamento. Quando não há diálogo não dá para saber quais são os projetos ou expectativas; o que faz feliz ou triste; o que incomoda ou satisfaz; o que agrada ou traz desgosto; o que perturba ou tranquiliza; o que faz rir ou chorar; o que traz luz ou escuridão. Nesse monte de interrogações, como é possível se relacionar?

Só há um jeito de se ter acesso aos pensamentos e sentimentos de uma pessoa: através do diálogo. Se o outro não fala, ou se fala e você não escuta; não há troca, não há compartilhamento, consequentemente, não dá para saber como se colocar na relação, e finalmente, não há relacionamento, mas sim, um compartilhamento de espaço.

 

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Publicação do livro: "Decodificação da comunicação não-verbal e teoria da mente. Uma proposta metodológica para investigação dinâmica da teoria da mente a partir do uso de cenas de filmes".





É com muito orgulho que divulgo a publicação da minha dissertação de mestrado no formato de livro!

Este trabalho teve como objetivo principal a construção de uma proposta metodológica para o estudo integrado dos componentes socioperceptivo e sociocognitivo da teoria da mente. Discute-se sobre a importância de se realizar investigações qualitativo-descritivas sobre a teoria da mente de modo a revelar novos indicativos do processamento dessa capacidade. Os métodos empregados atualmente para sua investigação, além de serem muito distantes das situações reais sob as quais os participantes necessitam construir uma teoria sobre a mente dos outros, empregam tarefas muito limitadas no que se refere ao seu potencial investigativo, pois consideram aspectos isolados do seu funcionamento como as representações mentais de primeira e segunda ordens; a atribuição de crença falsa; etc, o que contribui para a construção de uma ideia de fragmentação e não de unidade sobre o constructo. Assim, a estruturação da tarefa de decodificação dos sinais não verbais é uma tentativa de se contribuir para a construção de um paradigma que permita uma análise integrada dos componentes perceptivos e cognitivos da teoria da mente, possibilitando a análise das dimensões cognitiva e afetiva da teoria da mente.


Maiores informações: glendapratti@gmail.com
adquirir exemplar







segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Entrevista sobre novos arranjos familiares

Programa Contraponto TV Ales



O modelo tradicional de família, formado por pai, mãe e filhos, vem sofrendo alterações ao longo do tempo. As transformações resultaram em novos arranjos familiares, com núcleos formados, por exemplo, por casais homoafetivos que decidem adotar ou ter filhos biológicos, casais que vem de outros relacionamentos trazendo os filhos e decidem ter mais filhos juntos, entre outros exemplos. Para discutir o assunto, o programa recebe a professora universitária e advogada especialista em Direito de Família, Flávia Brandão, e a psicóloga e psicanalista Glenda Almeida Pratti.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

João e seu sintoma: Pensamentos obsessivos e comportamentos compulsivos

Por: Glenda Almeida Pratti 


João não vai mais ao trabalho, não sai com amigos e nem vai à casa de parentes. Há tempos não tem um relacionamento amoroso. É sozinho, faz tudo sozinho. As pessoas dizem que ele é antissocial. João é conhecido por ser “turrão” e “cabeça dura”, também o chamam de “sem paciência”. Está sempre apressado, se tiver que esperar por alguma coisa, ele prefere largar de mão. 



Mas nem sempre foi assim. João já foi uma pessoa agradável e sociável. Tinha amigos, uma carreira interessante e próspera, teve relacionamentos, alguns com duração considerável, no entanto, ele foi se fechando e aos poucos se recolheu dos ambientes e das relações. Hoje, passa grande parte do seu tempo em casa, quando sai, é sempre para fazer as mesmas coisas e sozinho.

O que poucos sabem da história de João é que com o passar do tempo ele desenvolveu uma serie de comportamentos “estranhos” do tipo repetição, se encheu de rituais sem os quais ele não conseguia exercer tarefas simples do cotidiano. Escovar os dentes era um grande sacrifício: Em sua cabeça tinha a ideia de que não poderia olhar para o espelho enquanto estivesse escovando os dentes, pois se ele fizesse isso significaria que ele sofreria um acidente de carro. Então, ele procurava não erguer a cabeça enquanto estava escovando os dentes para não ter que olhar paro o espelho, o problema é que seus olhos sempre o traiam e ele acabava fitando a si mesmo. Assim, a única solução para que ele não sofresse um acidente seria ele começar tudo de novo, e dessa vez, do jeito certo. João escovava os dentes pelo menos três vezes a cada manhã.

Preparar o próprio café da manhã também passou a ser uma tarefa trabalhosa. Ele colocou na cabeça que ele teria 3 segundos para cumprir cada uma das etapas do prepara do seu café da manhã: 3 segundos para pegar o pão no armário, 3 segundos para passar a manteiga no pão, 3 segundos para colocar o café na xícara...Se ele ultrapassasse o tempo em qualquer uma das etapas, sentia-se obrigado a começar tudo de novo sobre a pena de acontecer algo terrível a seu pai.

No trabalho, João passou a ser cobrado pelos constantes atrasos, para evitar que eles acontecessem, João passou a acordar cada vez mais cedo para ter tempo para conseguir fazer suas atividades. Chegou a ir trabalhar vários dias sem escovar os dentes e sem tomar café da manhã para não ter que lidar com seus pensamentos negativos e nem perder tempo com seus rituais. 

Passados alguns meses, seus pensamentos negativos começavam a aparecer também quando ele conversava com os colegas de trabalho. Ele sempre saia correndo no meio das conversas. O que os colegas não imaginavam é que ele saia para poder bater com as costas dos dedos na parede. A cada palavrão mencionado, ele sentia que teria que fazer isso para que algum colega seu colega não sofresse um acidente. João tinha vergonha dos seus rituais, por isso, os fazia o mais longe possível das pessoas, embora ele já não estivesse mais conseguindo se controlar. Daqueles que falavam muitos palavrões, João simplesmente fugia! João sofria muito com seus pensamentos. Eles ocupavam a sua mente sem pedir licença e não paravam até que ele realizasse a condição para que a tal tragédia prevista não acontecesse. João sabia que aqueles pensamentos não tinham lógica, chegou a se segurar para deixar de cumprir algumas condições, mas logo ele se via criando novas condições para que o seu comportamento de não realizar as tarefas que ele impunha a si mesmo não causasse algo ruim a si e aos outros.

Os pensamentos negativos e as compulsões de João foram aumentando até o limite que ele poderia suportar socialmente. Pediu demissão, não teve mais nenhum relacionamento amoroso, se afastou de amigos e pessoas próximas. Seus sintomas continuam, porém, ele acabou estruturando sua vida de tal forma, que ele até já se acostumou com seu sofrimento.

Agora ele escova os dentes na área de serviço do seu apartamento, toma café na padaria que fica perto do seu apartamento e evita ao máximo se relacionar com as pessoas. Só conversa com aquelas que ele sabe que não tem o costume de falar palavrão, mas mesmo assim, conversa muito pouco. Não assiste televisão pois a essa altura, ouvir palavrões da televisão também disparavam em si a necessidade de cumprir com determinado ritual. Não parou de sofrer, só que agora sofre sozinho e calado, pois não tem ninguém para ficar perguntando...

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A dinâmica do sofrimento experimentado por João lembra muito a de o pagamento de uma penitência. Muitas pessoas assim como João, sofrem por experimentarem um descontrole dos seus pensamentos acompanhados de uma compulsão que, em termos gerais, visa “anular” o pensamento negativo. Os pensamentos negativos podem ser de vários tipos, mas em geral remetem a possibilidade de coisas ruins acontecerem com a própria pessoa que tem os pensamentos ou com pessoas que ela quer bem. O conflito de valores diante dos pensamentos é muito grande e traz muito sofrimento. Grande parte das pessoas que sofrem com dificuldades que acometem o controle dos pensamentos, sentimentos e comportamentos, em função de vergonha ou constrangimento, tem muita dificuldade em falar do que sentem e de procurar ajuda. Pessoas como João experimentam grande sofrimento ao se depararem com seu sintoma pois não sabem como lidar com ele e tem a impressão de que estão sem controle, sentem culpa, vergonha, arrependimento e tristeza. A rispidez, a pressa e a falta de paciência podem acompanhar o quadro em função da grande confusão que essas pessoas experimentam internamente e que tentam administrar sem deixar transparecer seus sintomas e pensamentos.

João, que nesse texto é um personagem fictício - mas que poderia muito bem ser uma pessoa real - escolheu se adaptar ao sintoma. A adaptação ao sintoma é uma escolha possível mas não é a única. Pessoas que sofrem com pensamentos obsessivos e/ou desenvolvem comportamentos compulsivos podem melhorar ou piorar a sua qualidade de vida dependendo do modo como lidam com seus sintomas. Por isso, é importante procurar ajuda para encontrar um jeito para lidar com seus pensamentos e obsessões que não roube a sua qualidade de vida. 






segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Dificuldades com vestibular e processos seletivos nem sempre são uma questão de conteúdo ou de aprendizagem


 Por: Glenda Almeida Pratti

Apresentar um desempenho satisfatório no vestibular ou em algum processo seletivo nem sempre é apenas uma questão de conteúdo ou de aprendizagem.

Às vezes, por mais que o aluno tenha estudado e domine o conteúdo da prova, ele não consegue obter o desempenho esperado chegando até a apresentar um desempenho similar ao de alguém que não se preparou. 

Quem nunca ouviu falar do famoso “branco” na hora da prova; dos esquecimentos de documentos e dos atrasos que, além de causarem impacto na execução da prova prejudicando o rendimento do aluno, podem até fazer com que ele perca o exame, como todos os anos assistimos nos telejornais de todo país ao desespero de centenas de vestibulandos que ao chegarem aos seus locais de provas encontram os portões fechados. 

Para alguns olhares pode até parecer absurdo e fora de lógica estudar e não tirar boas notas, ou se preparar o ano inteiro e no dia do exame perder a prova por chegar atrasado, contudo, são situações mais comuns do que a maioria das pessoas pensam e podem trazer enorme sofrimento para aquele que as experimentam.

Existem fatores que podem influenciar o desempenho do aluno em processos seletivos tais como: a cobrança familiar; o sentimento de obrigação de apresentar bom desempenho em função das próprias expectativas e de terceiros; a dificuldade em dizer não; a dificuldade de fazer as próprias escolhas e a escolha de um curso por motivos outros que não o próprio desejo.

O importante nesse sentido é o aluno tentar se perguntar sobre o que representa para ele passar em um determinado processo seletivo refletindo sobre o porquê e o para quê fazer o curso. Por que e para quê ele precisa passar nesse curso e não em outro? O que mudará em sua vida? Quais são suas expectativas sobre o curso? Mas principalmente, é importante que o candidato se questione se ele fez essa escolha por causa dele ou por causa de outra pessoa? 

A dificuldade em responder a perguntas como essas podem sinalizar de que há alguma questão anterior que precisa ser respondida para que o candidato possa fazer a sua escolha com tranquilidade. Assim, os “brancos” e os “esquecimentos” talvez não sejam apenas reflexos de uma simples desatenção ou do nervosismo, mas sim, indicadores de que existe algo não resolvido para se considerar.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Sobre a indecisão

Por: Glenda Almeida Pratti

"O perfeito homem do mundo seria aquele que jamais hesitasse por indecisão e nunca agisse por precipitação".
Arthur Schopenhauer


Percebe-se que nos dias de hoje, a dúvida é vista como um sinal de fraqueza, característica daqueles que “não sabem o que querem da vida”. Ouvimos nas mídias em geral, os conselhos de especialistas dizendo que “as empresas estão buscando pessoas decididas” e que “sabem o que querem”, de modo que, para eles, desenvolver essa característica não é uma opção, mas sim “uma necessidade de mercado”.

Talvez, tenham razão. O mercado deve esperar por esse tipo de perfil profissional, até porque, imagine como seria para uma instituição ter em seu quadro profissionais que não consegue tomar decisões em momentos importantes para a empresa?

Mas e você? Que tipo de perfil prefere para se relacionar na sua vida pessoal? Para ter uma amizade ou para construir um relacionamento amoroso? Será que essa característica, tão difundida nas mídias é realmente primordial? Será que com o tempo não acabamos incorporando como valores para nossa vida pessoal os valores difundidos por uma visão utilitarista e comercial de mundo?

E as pessoas, são descartáveis? O que fazer com aquelas que não desenvolveram ou não nasceram com a característica de “ser uma pessoa decidida?" O que garante que uma vez indecisas, essas pessoas serão sempre assim? 

Vamos imaginar uma coisa: Como essa pessoa dita “indecisa” ou “confusa” pode desenvolver sua capacidade de tomar decisão se no mundo de hoje, não há espaço para a dúvida e para o não saber? 

O desenvolvimento de qualquer tipo de habilidade pressupõe um tempo para ocorrer. Aprendemos a tomar decisões quando adquirimos experiência e sabedoria. Saber tomar uma decisão é conseguir lidar com tudo aquilo que acompanha uma escolha. 

Quando decidimos alguma coisa, fazemos uma aposta com base nas nossas crenças, valores e expectativas. Não conseguir tomar decisões pode ser consequência de um conflito interno, por isso, é importante saber enxergar para além do que se vê, ou ainda, ouvir para além daquilo que os outros dizem que é bom pra nós. 

Saber tomar decisões não significa tomar decisões corretas. Saber tomar decisões tem mais a ver com compreender os desejos, motivações, expectativas envolvidas na escolha realizada.

Sabemos que noções como certo e errado são muito relativas. É importante se perguntar sobre o que significa para cada pessoa ter certezas. Será mesmo que na vida somos capazes de ter certeza das coisas antes de elas acontecerem? Quando o assunto é tomar  uma decisão será mesmo que é possível de ante mão saber se uma decisão é correta ou não? E as certezas, são fixas ou transitórias?Será que quando dizemos ter certeza de alguma coisa, nós a temos de verdade ou só acreditamos tê-la? Acreditar que se tem certeza é o mesmo que ter certeza? Nesse sentido, quando será que temos maior propensão a nos enganar, quando temos certeza ou quando temos dúvidas?

Ter dúvidas não é um problema, pois ninguém nasce sabendo. A construção do conhecimento e da sabedoria ocorrem com o tempo e a experiência. O problema é achar que a solução para as coisas é não ter dúvidas. Será que não ter dúvidas é um caminho possível de seguir no mundo real? 

A dúvida e o não saber são estados possíveis de ocorrer em qualquer tipo de situação. Eles podem ser transitórios, podendo ser superados com dificuldade ou facilidade dependendo do contexto; mas também podem ser uma realidade dentro de uma situação específica. 

É muito importante conseguir lidar com a falta, pois os problemas da vida não se resumem a saber ou não sobre uma determinada coisa. Em algumas situações podemos ter respostas, opiniões e ainda assim, não estarmos seguros para expressá-los ou simplesmente, podemos não ter uma resposta para dar em um determinado momento, o que não quer dizer que não a teremos no futuro. 

A convicção ferrenha pode ocultar uma grande insegurança de expor as próprias faltas, daí a tentativa de preencher todas as lacunas com respostas prontas ou certezas absolutas; justamente para não parecer aos olhos dos outros uma pessoa fraca. Contudo, ter dúvidas ou não saber tudo por si só em nada estão relacionados com fraqueza ou algo do tipo. Não saber ou ter dúvidas são estados importantes para o desenvolvimento humano pois eles nos impulsionam a buscar ou construir compreensões sobre a realidade. Já as certezas absolutas nos paralisam e impedem de imaginar e criar novas realidades possíveis.









quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Quando procurar atendimento psicológico?


Por: Glenda Almeida Pratti



Durante muito tempo o atendimento psicológico foi estigmatizado como sendo “coisa para doido” ou “perda de tempo”. Hoje a situação já se mostra diferente e essa percepção tem sido modificada. Aos poucos as pessoas estão construindo o entendimento de que existem tipos diferenciados de atendimento psicológico que se destinam a cumprir fins específicos, tais como para avaliação de risco em algumas cirurgias, avaliação da capacitação para execução de algumas atividades, orientação vocacional dentre outros. Portanto, o atendimento clínico é uma das modalidades de atendimento e não a única, e mesmo assim, nem todo atendimento clínico está relacionado à “doença” ou “transtornos”.


Algumas pessoas procuram fazer acompanhamento psicológico por sentirem dificuldades ao lidar com algumas questões ou situações que estão vivenciando ou já vivenciaram; outras buscam atendimento como auxilio para a compreensão de sentimentos e sensações; há aquelas que procuram atendimento pela necessidade de expressar sentimentos, afetos e pensamentos; e por fim, há aqueles que procuram atendimento por orientação de outra pessoa tais como familiares, profissionais de outra área (médico, professor etc.) ou mesmo de instituições (trabalho, instituições educacionais).


Dessa forma, o suporte psicológico pode ser uma alternativa válida para ajudar a enfrentar ou a compreender algumas situações que trazem sofrimento, desconforto, angústia, ansiedade ou stress para aqueles que as vivenciam. 


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O autismo

Por: Glenda Almeida Pratti


Talvez o leitor ao chegar a essa página tenha construído como expectativa de ler sobre algum tipo de definição, descrição de tratamento ou de causas para o transtorno. Lamento lhes informar que esse não é o objetivo desse texto!

Esse texto falará de várias coisas, dentre elas, de um certo olhar...

Um olhar que atravessa o horizonte, que embora tão perto fisicamente, sinaliza estar muito longe. Longe daqui, longe dali, longe de tudo. Mas que me surpreende, em às vezes está bem perto e profundo. Não é sempre e nem com tudo. Mas quando vem, toma conta de tudo o que há. Esse olhar é diferente e faz ter a certeza de que tem algo a ser dito.

Às vezes, esse olhar é quase que literalmente olhos nos olhos, é perto, bem pertinho. Contudo, na maioria das vezes é um olhar que parece olhar sem ver. Mas ele, só parece ser assim, pois o dono desse olhar, me pega pela mão e me leva onde ele quer. Quando não vou a esse lugar, ele me puxa, me empurra e me impõe o seu querer. É um querer que ele tenta fazer não parecer como seu, se faz como um querer que passa pelo meu querer; pois é a minha mão que ele faz abrir a porta e não a dele. Mas note: é uma porta que está ali, que ele vê e que acha que precisa ser aberta, ele sabe como, mas não consegue fazer por si mesmo, tem que fazer por Outro. 

Esse olhar se fixa em mim, mas é rápido, bem rápido e que parece fugir quando chamo seu nome. Seu dono prefere continuar enfileirando seus carrinhos um a um repetidamente, a olhar para a direção da minha voz. Paro de chamar, começo a conversar com ele sobre as coisas da vida, sobre uma música que acho bonita, um capítulo da novela ou um acontecimento do dia que achei interessante, pergunto qual a sua opinião e no silencio, ofereço uma réplica dizendo minha opinião sobre o tema que eu estiver falando, sempre considerando que ali há uma pessoa que tem sentimentos, pensamentos e opiniões, e como tal, podemos dialogar. E assim continuamos sem cruzar nossos olhares. Eis que surge no meio da conversa, que num primeiro olhar mais parece um monólogo, um novo olhar; acompanhado de um virar de cabeça e uma expressão de surpresa (alguma coisa que falei chamou sua atenção!), abre a boca como se fosse dizer alguma coisa, chega a levantar seu tronco para cima e respirar fundo, no entanto, como num relance esse olhar de interesse e surpresa foge novamente, como se não pudesse se mostrar. Continua a enfileirar os carrinhos um a um.

Talvez esse olhar, perdido no horizonte, seja justamente uma dificuldade de se sustentar como uma pessoa que vê; como uma pessoa que quer ver o mundo mas que acha que por algum motivo não pode mostrar como vê o que vê. E uma coisa é certa: ele vê e muito bem e em alguns casos, até melhor que muita gente! Contudo, percebo que por algum motivo, seu olhar evita mostrar os efeitos que o mundo tem sobre ele enquanto um sujeito que vê, (e com isso não estou falando só da visão, mas também da audição do tato...).

Um olhar que parece literal: consegue apontar e identificar as coisas “do jeitinho que elas são”, que não dá espaço para a abstração e o equívoco. Parece que para as coisas serem reconhecidas e consideradas elas não podem ter sentidos mas sim significados. Como se as coisas não pudessem sair do seu padrão, ou em outras palavras, da sua função inicial. Mas... porque será que o dono desse olhar faz as coisas predominantemente na base do significado e tem dificuldade de construir os próprios sentidos na linguagem? Porque será que há pouco espaço para o equívoco, a dúvida, o erro e a mudança? Do que será que ele tem receio? Porque será que não pode mudar de caminho e percurso? Porque será que novos caminhos são tão evitados e parecem fazer tão mal aos donos desses olhares. Algumas vezes, o olhar distante no horizonte, se transforma em pavor, um pavor que parece revelar um medo do que pode acontecer se ele mudar e que talvez por isso, esse olhar tende a manter-se sempre no mesmo lugar.

A cada vez que ouço alguém dizer que esse olhar, distante no horizonte, não foi sempre assim, tenho mais certeza de que há algo nesse olhar que se perdeu mas que ainda pode ser recuperado. 

Eu aposto nesse olhar que nem sempre é assim, perdido; que muda e nós sabemos disso e sabemos também que não muda para tudo nem para todos. Esse olhar de antes, continua ali, mas já não é tão frequente, embora ainda seja presente, às vezes esse olhar diferente acaba tornando-se algo já muito raro de se ver, mas que ainda pode ser visto, não sem esforço. È preciso construir um novo modo de olhar, para que então àquele olhar diferente possa se deixar perceber novamente.




segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Avaliação psicológica no contexto de cirurgia bariátrica


Por: Glenda Almeida Pratti




A avaliação psicológica de pacientes candidatos à cirurgia bariátrica é uma prática recente e necessária. A presença obrigatória de psicólogos em equipes de cirurgia bariátrica foi oficialmente instituída por meio da resolução nº 1766/05 do Conselho Federal de Medicina. Esse procedimento de avaliação tem como função verificar as condições psicológicas do candidato à cirurgia analisando se o mesmo encontra-se apto a lidar com as mudanças às quais será submetido na fase pré e pós-cirúrgica. Muitos pacientes não sabem que a avaliação psicológica realizada para esse fim vai muito além da identificação da aptidão momentânea para a cirurgia. 

A cirurgia bariátrica é uma intervenção realizada no aparelho digestivo para reduzir o reservatório gástrico. É um procedimento indicado a pacientes para o tratamento da obesidade visando a redução de peso. Esse tipo de intervenção acarreta numa reorganização da vida da pessoa em grandes proporções impondo a ela, dentre outras mudanças, uma nova rotina de hábitos cotidianos que começam no período pré-cirúrgico e se estendem durante toda a vida, além de interferir na imagem corporal que a pessoa tem de si. Essas mudanças incluem alterações no modo como a pessoa lida com o próprio corpo, com a comida, com o prazer e também no modo como se relaciona com as outras pessoas. Alterações essas que nem sempre são fáceis de realizar, mas principalmente, não são fáceis de sustentar da forma necessária. Assim, avaliação psicológica tem como finalidade identificar se o paciente em questão reúne recursos psicológicos para lidar com todas as etapas desse processo. 

Desse modo, a indicação é de que o paciente, candidato à cirurgia, receba acompanhamento psicológico em todas as etapas do processo e não apenas na fase anterior à cirurgia. Isso significa dizer que a avaliação não termina após a identificação da aptidão inicial do paciente para a intervenção e deve se estender para o período pós-cirúrgico, no qual se encontram os maiores desafios.

A forma como é realizada a avaliação psicológica para cirurgia bariátrica pode variar de acordo com o profissional. Em geral, a primeira fase de avaliação é realizada em algumas sessões, no entanto, o acompanhamento deve ser continuado durante todas as fases do processo. Ressalta-se também que o intercâmbio entre os profissionais que estão acompanhando o paciente (médicos, nutricionistas, psicólogos etc.) é indispensável.

O ganho de peso muitas vezes está ligado a causas emocionais e afetivas e não necessariamente a um descontrole comportamental como alguns creem. O ganho de peso pode ser relacionado ao modo como se lida com o prazer, a frustração e/ou a angustia. Sendo assim, a submissão a uma cirurgia complexa como a bariátrica sem o suporte profissional continuado necessário para trabalhar as questões psicológicas ligadas ao ganho de peso não é indicada.