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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O autismo

Por: Glenda Almeida Pratti


Talvez o leitor ao chegar a essa página tenha construído como expectativa de ler sobre algum tipo de definição, descrição de tratamento ou de causas para o transtorno. Lamento lhes informar que esse não é o objetivo desse texto!

Esse texto falará de várias coisas, dentre elas, de um certo olhar...

Um olhar que atravessa o horizonte, que embora tão perto fisicamente, sinaliza estar muito longe. Longe daqui, longe dali, longe de tudo. Mas que me surpreende, em às vezes está bem perto e profundo. Não é sempre e nem com tudo. Mas quando vem, toma conta de tudo o que há. Esse olhar é diferente e faz ter a certeza de que tem algo a ser dito.

Às vezes, esse olhar é quase que literalmente olhos nos olhos, é perto, bem pertinho. Contudo, na maioria das vezes é um olhar que parece olhar sem ver. Mas ele, só parece ser assim, pois o dono desse olhar, me pega pela mão e me leva onde ele quer. Quando não vou a esse lugar, ele me puxa, me empurra e me impõe o seu querer. É um querer que ele tenta fazer não parecer como seu, se faz como um querer que passa pelo meu querer; pois é a minha mão que ele faz abrir a porta e não a dele. Mas note: é uma porta que está ali, que ele vê e que acha que precisa ser aberta, ele sabe como, mas não consegue fazer por si mesmo, tem que fazer por Outro. 

Esse olhar se fixa em mim, mas é rápido, bem rápido e que parece fugir quando chamo seu nome. Seu dono prefere continuar enfileirando seus carrinhos um a um repetidamente, a olhar para a direção da minha voz. Paro de chamar, começo a conversar com ele sobre as coisas da vida, sobre uma música que acho bonita, um capítulo da novela ou um acontecimento do dia que achei interessante, pergunto qual a sua opinião e no silencio, ofereço uma réplica dizendo minha opinião sobre o tema que eu estiver falando, sempre considerando que ali há uma pessoa que tem sentimentos, pensamentos e opiniões, e como tal, podemos dialogar. E assim continuamos sem cruzar nossos olhares. Eis que surge no meio da conversa, que num primeiro olhar mais parece um monólogo, um novo olhar; acompanhado de um virar de cabeça e uma expressão de surpresa (alguma coisa que falei chamou sua atenção!), abre a boca como se fosse dizer alguma coisa, chega a levantar seu tronco para cima e respirar fundo, no entanto, como num relance esse olhar de interesse e surpresa foge novamente, como se não pudesse se mostrar. Continua a enfileirar os carrinhos um a um.

Talvez esse olhar, perdido no horizonte, seja justamente uma dificuldade de se sustentar como uma pessoa que vê; como uma pessoa que quer ver o mundo mas que acha que por algum motivo não pode mostrar como vê o que vê. E uma coisa é certa: ele vê e muito bem e em alguns casos, até melhor que muita gente! Contudo, percebo que por algum motivo, seu olhar evita mostrar os efeitos que o mundo tem sobre ele enquanto um sujeito que vê, (e com isso não estou falando só da visão, mas também da audição do tato...).

Um olhar que parece literal: consegue apontar e identificar as coisas “do jeitinho que elas são”, que não dá espaço para a abstração e o equívoco. Parece que para as coisas serem reconhecidas e consideradas elas não podem ter sentidos mas sim significados. Como se as coisas não pudessem sair do seu padrão, ou em outras palavras, da sua função inicial. Mas... porque será que o dono desse olhar faz as coisas predominantemente na base do significado e tem dificuldade de construir os próprios sentidos na linguagem? Porque será que há pouco espaço para o equívoco, a dúvida, o erro e a mudança? Do que será que ele tem receio? Porque será que não pode mudar de caminho e percurso? Porque será que novos caminhos são tão evitados e parecem fazer tão mal aos donos desses olhares. Algumas vezes, o olhar distante no horizonte, se transforma em pavor, um pavor que parece revelar um medo do que pode acontecer se ele mudar e que talvez por isso, esse olhar tende a manter-se sempre no mesmo lugar.

A cada vez que ouço alguém dizer que esse olhar, distante no horizonte, não foi sempre assim, tenho mais certeza de que há algo nesse olhar que se perdeu mas que ainda pode ser recuperado. 

Eu aposto nesse olhar que nem sempre é assim, perdido; que muda e nós sabemos disso e sabemos também que não muda para tudo nem para todos. Esse olhar de antes, continua ali, mas já não é tão frequente, embora ainda seja presente, às vezes esse olhar diferente acaba tornando-se algo já muito raro de se ver, mas que ainda pode ser visto, não sem esforço. È preciso construir um novo modo de olhar, para que então àquele olhar diferente possa se deixar perceber novamente.




segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Crianças também tem problemas


Por: Glenda Almeida Pratti


Com a volta às aulas, é comum ouvir que pais e responsáveis concentram suas preocupações em dois focos: na escolha da instituição onde suas crianças serão educadas e também, na compra do material escolar que será utilizado por elas. No entanto, pouco se ouve sobre a preocupação com implicações que os comportamentos e posturas de pais e responsáveis podem ter sobre os problemas que as crianças podem vir a apresentar durante o seu percurso educacional. Por isso é importante chamar atenção de como os adultos estão lidando com a fase posterior ao ingresso do aluno na escola, ou seja, com o cotidiano de suas crianças.


As dificuldades, desafios e conflitos não aparecem só na vida adulta, eles também aparecem ao longo do processo de desenvolvimento dos pequenos. A rotina infantil é cheia de desafios cuja ultrapassagem proporciona a preparação para a vida adulta. Para isso, é muito importante que as crianças tenham em casa um espaço de diálogo, interesse e escuta sobre suas atividades e rotina. Contudo, muitos pais não acreditam que crianças enfrentam problemas e dificuldades em seu cotidiano, pois nutrem uma crença de que a vida infantil é “simples”, e que dessa forma, os problemas da infância não se caracterizam como “problemas de verdade”. Esse tipo de crença direcionam os pais a adotarem, diante das dificuldades de seus filhos, posturas que ignoram ou negam a existência de questões e conflitos nessa fase. Posicionamentos desse tipo podem ter efeitos negativos no desenvolvimento da criança, tais como: insegurança e baixa autoestima - já que a criança pode interpretar que só ela tem problemas e que sua capacidade de lidar com eles é aquém a capacidade das outras crianças; isolamento familiar - aos poucos a criança perde a confiança que tem na família, deixa de contar sobre a sua rotina, omite eventos importantes de sua vida e pode, inclusive, mentir sobre seus fracassos e frustrações por temer recriminações de seus responsáveis. 

Sendo assim, é importante lembrar que a compreensão e o apoio de pais e responsáveis tem papel fundamental na formação infantil. É na infância que as crianças experimentarão seus primeiros conflitos podendo assim construir e amadurecer recursos para lidar com os desafios, as dificuldades e frustrações tão comuns na vida do ser humano. Desse modo, faz-se necessário que pais ou responsáveis reflitam sobre como estão escutando suas crianças e o que estão fazendo com aquilo que ouvem. Pois, em muitos casos, são as próprias dinâmicas familiares que contribuem para o surgimento de questões psicológicas nas crianças.